O pandeiro, o palco e o apartamento
Com muitas décadas de atraso, finalmente algum grupo de Uberlândia presta homenagem ao seu filho mais ilustre, o ícone Grande Otelo, reconhecido em nível internacional como uma das grandes representações de nossa brasilidade.
A iniciativa é do Grupo Athos, em temporada aberta nesse fim de semana, que prossegue durante todo o mês. A escolha do local para a encenação foi um apartamento abandonado no qual o público é conduzido pelo espaço da memória do próprio Grande Otelo, muito bem interpretado por Aryadne Amâncio. Na narrativa, as lembranças da personagem são pontuadas pelas intervenções provocativas de uma referência externa ao Brasil, Orson Welles, que revigora o conceito do vigor artístico brasileiro cultuado no mundo, em interpretação competente de Wellington Menegaz.
São memórias fragmentadas, de uma história que nos reflete, que nos pertence. Somos nós em cena, contraditoriamente expressos em uma estatura pequena e negra, gigante na expressão de nossa cultura. No apartamento, espectadores são convidados a viver a dicotomia do ser demolido entre os estereótipos e desencontros que se instalam no caminho de conquistas, perdições e tragédias pessoais.
O espaço cênico de uma aventura alegre e triste nos remete ao cubo mágico de um picadeiro, a um labirinto de emoções quando cada porta é um novo mundo do pequeno Otelo. Tais entreatos, que envolvem pela atmosfera de surpresa, pecam pela ausência de um ritmo que deveria sustentar a boa estrutura dramatúrgica da montagem. A direção do espetáculo, assinada por Luiz Humberto Arantes, é visível em cada cena, em cada ator, em cada intenção que fulgura na receptividade do público.
O elenco é afinado, mas precisa dispor de mais alma para potencializar o eixo dramatúrgico. A atriz Ana Maria Rodrigues vive momentos ímpares como quando traz à cena a avó do ainda menino Grande Otelo. O ator Johnny Charles, conhecido nas artes cênicas locais mais pela dança do que pelo teatro, defende bem momentos de humor do espetáculo, mas perde-se no caricato desejo de perceber o riso.
Dona de uma das vozes mais potentes, Karina Farnesi revela-se uma boa atriz, de intensidade dramática na medida certa. O talento, assim como a insegurança, percebe-se em Bárbara Prata, cujas potencialidades poderiam se destacar mais na cena. E, de um modo geral, todo o elenco pode dar um upgrade na cadência do samba, matéria prima na carreira do biografado.
Todas essas fragilidades, nenhuma delas comprometendo a qualidade, são expostas na descartável cena do julgamento que precede o apoteótico final. Um final comovente, que nos encerra com o orgulho (e um pouco de vergonha) de pertencermos à mesma terra do pequeno Grande Otelo.
-
Orande Otelo filho disse:17/05/11 13:17
Fico feliz com a lembrança telefone para contacto 021 3835-0510 Rio de Janeiro
Comentários 1