Fora da zona de conforto
Há certas leis que parecem existir para serem descumpridas. Aliás, descumprir leis, ou pelo menos amparar-se em sua aura de ambiguidade, em muitos casos, é uma atitude nobre. Mais vale a nobreza de uma firme posição de discordância das normas com as quais não tivemos o pacto da criação do que sacralizar aquilo que cerceia nossa liberdade.
Uma lei recente, como várias outras em um rol infindável de imposições, parece passar despercebida pela maior parte dos cidadãos. Em nome da “segurança” proibiu-se o uso de celulares dentro das agências bancárias. Bastam alguns minutos dentro dela, para perceber clientes que desconhecem a proibição ou simplesmente a ignoram.
Tudo bem. Essa é uma lei pequena e que não representaria nenhum transtorno cumpri-la. Desde que as agências cumprissem outras leis explicitamente desrespeitadas, como o tempo limite para aguardar o atendimento. Se o usuário, em muitas ocasiões, passará um longo período dentro do estabelecimento, nada mais natural do que usar o seu telefone móvel para aliviar a angústia da espera.
As leis, de um modo geral, deveriam existir para proporcionar conforto aos cidadãos. Conforto e respeitabilidade. No caso dos bancos, o desconforto é desde a entrada. Há toda uma preparação ritualística para estar ali dentro. Uma travessia às vezes incômoda, sobretudo para as mulheres portando bolsas, que devem permitir, tolerantes, que as mesmas sejam revistadas. Chaveiros, canetas, isqueiros e óculos devem ser depositados em uma caixa. Curiosamente, mesmo os objetos se misturando, quase não há registro de apropriação indébita de algum mais espertinho.
Fora do âmbito da legislação, dentro dessas mesmas agências é comum presenciar certo desrespeito aos consumidores, sobretudo os de idade avançada, que ficam à mercê do humor dos atendentes.
Recentemente, no mesmo dia, presenciei um senhor com aparência bem idosa ir e voltar sete vezes do caixa eletrônico, até o atendente se convencer que seu cartão magnético realmente não funcionava. Uma outra senhora foi alvo de impaciência do funcionário. Aguardando pela sua senha de número 71, dirigia-se ao caixa cada vez que soava a campainha para um novo atendimento. A pessoa não teve sensibilidade para perceber que aquela senhora era analfabeta e não conseguia identificar o número de sua senha.
Legislar a sociedade, principalmente no ambiente financeiro, força motor em todo o mundo, não é uma tarefa fácil. Talvez fosse, se as leis trouxessem aos cidadãos a sensação de proteção, conforto e agilidade.
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