Carlos Guimarães Coelho

Cultura e arte

Transe Cultural Jornalista e produtor cultural e crédulo de que as artes, em todas as suas modalidades, têm poder transformador.

19/07/2011 6:00

Desamparados bailarinos de exportação

Jornalista e produtor cultural

Uma trajetória de sucesso nem sempre é o que parece ser. Há grupos e artistas que têm consagração e reconhecimento público, algumas vezes até em nível internacional, e estão exatamente como no ponto de partida, nem mais ricos nem menos pobres.

A arte tem dessas coisas. Quando se pensa que pela projeção que tem na sociedade o artista está amparado por uma boa sobrevivência, a proximidade revela que os esforços quase sempre ficam concentrados na perpetuação da arte e não necessariamente daqueles que a produzem.

É o caso, em Uberlândia, de um grupo que tem levado o nome da cidade para todo o país, assim como para outros continentes, a Companhia de Dança Balé de Rua, que realizou nesse fim de semana uma mostra com apresentações dos alunos com os quais trabalham em projetos sociais na periferia, além de o elenco principal reapresentar a bela peça de seu repertório “E agora, José?”, e se preparar para uma nova incursão internacional, em dois meses, dessa vez na Tailândia.

O Balé de Rua trouxe para a cidade uma atitude pioneira na área, que repercutiu para o resto do país ao ponto de serem convidados para frequentes apresentações na Europa, a fusão de linguagens diversas em um mesmo espetáculo e a possibilidade de uma dança visceral, questionadora e essencialmente negra. Além de os integrantes assumirem o desafio de abandonarem suas profissões de origem para viver exclusivamente da dança. Desafio este que até hoje traz mais insegurança do que o conforto que mereceriam apenas pelo mérito de serem da Companhia Balé de Rua.

É muito triste quando nos deparamos com a realidade de o grupo estar quase perdendo a sua sede, um espaço que se tornou não só o quartel general da companhia, mas abrigou crianças de bairros como o Esperança, o Joana Darc, o Shopping Park, entre outros, em aulas que resultaram em espetáculos e, mais que isso, na demonstração de que elas podem se expressar no mundo por meio da dança. A tristeza é saber que o grupo, quando retorna para casa após as andanças pelo mundo, mesmo se dispondo a revelar o mundo da dança para adolescentes de baixo poder aquisitivo, tem a realidade oposta ao glamour do aplauso internacional.

Na mostra da semana passada quem não pegou o convite com antecedência, não assistiu aos espetáculos. O Balé de Rua é amado por um público fiel em Uberlândia. É amado também em outras cidades brasileiras. E em outros países. Mas continua pobre, aguardando as benesses de um patrocínio que garanta a sua manutenção. Mantê-lo não é só propiciar a sobrevivência de seus bailarinos, exportadores da nossa cultura, mas é também garantir às novas gerações o direito de não viverem em situação de risco e se manifestarem no mundo por meio da arte.

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