Ainda nos tempos da intolerância
Há pouco mais de um mês o Brasil viveu um momento de intolerância racial pela vitória de uma mulher negra ao título de Miss Itália Brasil. A baiana Silvia Novais, de 24 anos, eleita Miss Itália no Mundo 2011, em seu momento de glória, teve de se deparar até com xingamentos de baixo calão, como se beleza fosse um privilégio da raça branca. Imaginei se a opinião ofensiva de tantos internautas seria compartilhada também pelo público uberlandense.
É fato que Uberlândia tem um histórico racista. Em uma pesquisa no Arquivo Público Municipal, constatei o quanto a imprensa local fomentava a indisposição à raça negra. Há um articulista da primeira metade do século passado que reclamava das rodas da negrada na calçada, incomodando o tráfego dos transeuntes da elite. Talvez opiniões como essas tenham desencadeado o hábito local preservado até os anos de 1970, de negros e brancos transitarem por diferentes calçadas no centro da cidade. Alguém pensar dessa forma e defender publicamente o seu pensamento, naqueles tempos, vá lá. O inadmissível é que haja hoje, em pleno 2011, esse tipo de opinião.
Ironicamente, as grandes celebridades uberlandenses são negras. A começar pelo ícone da cultura brasileira, Grande Otelo, passando por Pena Branca e Xavantinho, Alexandre Pires e, mais recentemente, a maioria dos integrantes da Companhia Balé de Rua, além de outros, quase desconhecidos por aqui, como o professor e teatrólogo Ironides Rodrigues, que foi um intelectual de prestígio em nível nacional.
É irracional que na contemporaneidade alguém pense em supremacia racial e se julgue acima de todos e de tudo apenas pela cor branca da pele. Em um dos comentários em ataque à baiana vitoriosa, uma internauta dizia que sua prima, loira e de olhos azuis, é que tinha direito ao título, como se uma suposta superioridade lhe postergasse esse direito.
A sorte é que no terreno virtual também existe vida inteligente. Um amigo ator postou outro dia um comentário, no qual dizia “há três dias meu amigo PRETO Alexandre de Sena foi espancado por policiais racistas em Blumenau, ontem fomos abençoados pela voz do PRETO Milton Nascimento em Araxá, e hoje o PRETO Jack Will me apresentou a entrevista do PRETO Itamar Assumpção no programa do PRETO Abujamra.
Porque todos somos PRETOS, e PONTO! Se você ainda não é, desejo que Deus te empreteje e sejas feliz!”.
E assim caminha a humanidade, alguns desconstruindo e desumanizando-a, e outros querendo aprimorá-la, não por esdrúxulas teorias raciais, mas pelos princípios da igualdade e da tolerância às diferenças.
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