Carlos Guimarães Coelho

Cultura e arte

Transe Cultural Jornalista e produtor cultural e crédulo de que as artes, em todas as suas modalidades, têm poder transformador.

13/09/2011 6:00

O orgulho ferido da nação

Jornalista e produtor cultural

No domingo, foi levada à exaustão a lembrança da tragédia sobre as torres gêmeas do complexo americano World Trade Center. O programa “Fantástico”, da Rede Globo, se referiu à data como o maior atentado terrorista da História. Foi chocante? Sim! Foi uma tragédia? Sim! Foi a única? Não! Há outras atrocidades cometidas e que deixaram como saldo milhares de vítimas.

Por razões religiosas ou políticas, por ignorância ou ostentação do poder militar, outras tragédias aconteceram na história da humanidade e nem sempre são lembradas com o mesmo fervor com o qual o mundo relembra o fatídico 11 de setembro. Dois milhões de vietnamitas e mais uma grande quantidade de soldados norte-americanos, quase todos negros e brancos desempregados, 240 mil pessoas nos bombardeios de Hiroshima e Nagasaki, um milhão de iraquianos, cinco mil afegãos e cerca de 17 mil americanos, ofensivas militares primitivas, quase todas desencadeadas pelo país que se posiciona como o mais desenvolvido do mundo.

Não que se justifique a covardia acontecida há 10 anos. Nada pode justificar a morte de tantos inocentes. Assim como não se justifica o argumento de preservar a “paz mundial” – uma desculpa para interesses econômicos, territoriais e políticos. A guerra contra o terrorismo tem dois lados. E o terror, na verdade, está em ambos. Não há mocinhos e bandidos. E vítimas são sempre vítimas, não importa de quais continentes e nem que de forma.

A questão em relação a este evento foi o golpe sofrido pelos americanos. A poderosa nação, habituada a se posicionar sempre como vencedora e grande referência para o mundo, viu a sua grade protetora ser rompida e o ataque suicida dos radicais prosperar em sucesso. Maior do que o saldo de vítimas da tragédia é o orgulho ferido da nação intocável.
Felizmente, a hegemonia em torno das potencialidades norte-americanas já não existe mais. O mundo evoluiu de tal forma que hoje as outras nações não vêem mais nos Estados Unidos um exemplo de supremacia. Tão perigoso quanto o pensamento radical dos terroristas é a crença de que a cultura de um país sobressai-se aos outros povos ao ponto de querer impor-se como uma linguagem universal.

Há visíveis contradições internas nesse país que muitos adotam como modelo, desde uma suposta democracia racial que desencadeia mais no preconceito e em conflitos do que em soluções para a harmonia entre as raças, até oscilações no desequilíbrio financeiro que coloca em cheque a economia em todo o mundo.

Por mais elegante e potente que queiram parecer, os Estados Unidos carregam as mesmas fragilidades dos outros povos. E são, portanto, passíveis de serem vitimados pelas mesmas tragédias.

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