Momento de arrumar os armários
Percebi que vários amigos arrumaram gavetas e armários nos últimos dias do ano passado, uma tradição que acentua o sentimento de renovar-se nessa época em que o tempo pede passagem e estabelece no cronos a metáfora de início, meio e fim. Preferi fazer isso no primeiro dia de 2012, pra sentir o quanto de mim desorganizado há para ir se reorganizando ao longo dos próximos dias e por quanto tempo é possível sistematizar os nossos pertences e os nossos sentimentos.
Entre papéis em desuso, fotos, discos de raro uso e livros que após lidos deveriam ser compartilhados e nunca guardados, a memória brinca e salta sensações que ficaram esquecidas, algumas em um cantinho privilegiado e outras tão escondidas como se a intenção fosse mesmo de apagá-las.
Estranhamente, surge a saudade do que não está mais lá, como os livros que já não temos e a grande coleção de discos em vinil doada ao amigo músico. Com isso, surge também o receio da saudade futura de tudo aquilo que seja descartado agora.
Arrumar gavetas e armários é mais do que uma ótima terapia sincronizada com a metáfora do tempo em transição. É a regressão de uma vida, de vidas passadas e até de outras que desconhecemos, mas cujas energias estão lá, em um pedaço de papel, em uma canção que nos toca, em uma página de livro que um dia lemos com emoção.
Mais do que isso, é também uma tomada de posição na vida, um contato com o que há de mais essencial em nós. É viver o presente relendo o passado para que o futuro próximo seja, no mínimo, de atitude honesta conosco mesmos. É assim que quero viver os dias desse novo ano, coerente com a história que surgiu até aqui, atento aos erros e acertos cometidos nos últimos tempos, arquivados de alguma forma nos fundos dos armários e das gavetas.
Quando se arruma as gavetas, a sensação que fica não é a de esvaziamento, ainda que a partir dessa arrumação sobre na porta de casa sacos repletos de lembranças aguardando o seu depósito final, onde, finalmente, serão esquecidas, ao se dissolverem em algum lixão. Quando se arruma as gavetas, vai se embora, com a poeira acumulada, tudo aquilo que não nos tem mais serventia. Ficam as estantes limpas e, do passado, apenas aquilo que escolhemos manter, por afeto, obrigação ou merecimento.
Em 2012, sobretudo por ser um período de pleito eleitoral, há muito por acontecer. Em se tratando de uma época em que o mundo vive grandes transformações, é mais do que hora de todos arrumarmos nossos armários e gavetas. E nos dispormos, sem resistência, ao que seja novo. Que flua a arte e a honestidade de comportamento. Afinal, nestes dias, o mundo inteiro graceja pelo renovar-se.
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Anamaria Matos disse:03/01/12 10:05
Bom dia Carlos!
Me deparei hoje com a sua crônica, “Momentos de Arrumar os Armários” no Jornal Corrêio e me surprendeu pela oportuna e prazerosa forma com que o (sr.?) escreve.
Parabéns pelo seu artigo tão real e que toca a alma neste começo de ano.
Sou das pessoas que também gostam de elogiar um trabalho, pois acredito que hoje vivemos cheio de cobranças e só sujeito a aprovaçaõa pela falta de críticas.Que Deus ilumine seu caminho em 2012 e nos proporcione bons e agradáveis momentos de leitura, atraves da sua colaboração nesta coluna do jornal.
Atenciosamente,
Anamaria Matos
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