Carlos Guimarães Coelho

Cultura e arte

Transe Cultural Jornalista e produtor cultural e crédulo de que as artes, em todas as suas modalidades, têm poder transformador.

13/03/2012 7:05

Em busca do teatro da palavra

Jornalista e produtor cultural

Artesanal. Este é o mote da montagem e da narrativa no espetáculo “As bordadeiras de Santiago”, em cartaz este mês na sede da Associação de Teatro de Uberlândia (ATU). A encenação, um exercício acadêmico galgado à perspectiva de peça teatral ancorada em textos de Eduardo Galeano, é delicada, singela e absorve os espectadores em seus poucos minutos de duração.

A montagem é artesanal não no sentido da precariedade, mas sim da construção cênica permeada por um realismo criativo, que assume a atmosfera de um bom teatro, visceral, no qual o elenco se impõe como representante de uma arte essencialmente da palavra.

Três boas atrizes, Aline Jorge, Eluhara Resende e Thabatta Ferreira, dão vozes aos relatos dramáticos das bordadeiras, na maior parte do tempo pontuadas pelo equilíbrio e domínio técnico. Em início de carreira, revelam excelentes potencialidades para conquistar o público e alçar voos na trajetória teatral.
Anita, Lurdes e Soledad são as personagens às quais o título faz alusão. Representativas inicialmente, como o próprio texto indica, das mulheres abandonadas em decorrência do cárcere de seus maridos, e depois de toda uma população pobre à mercê de ditaduras militares, elas constroem em cena o diapasão da arte como força de resistência a quaisquer opressões.

A encenação proposta pelo professor Narciso Telles, com a colaboração de Marcella Prado e Luiz Carlos Leite na concepção dramatúrgica, teve como objeto de trabalho o feliz arsenal de metáforas da obra de Galeano. O autor de “As veias abertas da América Latina” talvez seja um dos melhores representantes de nosso povo.

Criativos, souberam tirar proveito desse material e trazer à cena o teatro essencial sem as pieguices usuais de muitos que recorrem ao tema da latinidade.

Não desmerecendo o espaço que abrigou a iniciativa – é bom ver a entidade da classe servindo ao seu escopo – melhor ainda seria se as apresentações acontecessem no palco convencional e agregassem à proposta o elemento da iluminação que, seguramente, levariam a cena a outra dimensão. A montagem poderia também explorar um pouco mais a música executada ao vivo, expectativa acesa com a presença de instrumentos, mas frustrada com sua execução por poucos instantes.

De qualquer modo, a curiosa junção entre o curso de teatro da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e a ATU, mesmo que aqui registrada apenas em um acordo pelo espaço físico, traz um quadro otimista para a configuração do movimento teatral em Uberlândia. A UFU é a mais importante referência contemporânea de produção teatral na cidade e a ATU entidade histórica que pode se revigorar a partir dos processos dessa proximidade.

Coincidentemente, isso tem muito a ver com os textos de Eduardo Galeano.

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