Carlos Guimarães Coelho

Cultura e arte

Transe Cultural Jornalista e produtor cultural e crédulo de que as artes, em todas as suas modalidades, têm poder transformador.

1/05/2012 7:01

O voo mágico do Faz de Conta

Jornalista e produtor cultural

Não interessa o tema. O fato é que a arte desde sempre se coloca à disposição da coletividade, sobretudo, como foco de resistência às atrocidades e equívocos que o ser humano possa cometer contra si próprio. Uma companhia teatral da cidade, até então movida pelo interesse em despertar nas crianças a sensibilidade para refletir sobre o mundo por meio das expressões artísticas, amplia o seu foco para todas as idades e surpreende os espectadores com o esmero de uma produção sob a bandeira de nosso ecossistema. “Cerrado, entre cascas e raízes”, em cartaz por espaços públicos da cidade, traz à cena um grupo Faz de Conta amadurecido, comprometido com a realização cênica em alto nível e, o melhor, despretensioso no sentido de permitir que o vigor do tema e da cena sobressaia-se a quaisquer vaidades e hierarquias.

Heterogêneos, os atores do elenco, oriundos de vários grupos da cidade e familiarizados com a linguagem do teatro de rua, constituíram um grupo uníssono, que contribuiu para o ritmo ágil e envolvente do espetáculo.

Usando elementos e conhecimentos adquiridos ao longo de sua existência, o Faz de Conta consagra-se com este “Cerrado…”, mostrando-se ao público com um trabalho de grande e comovente plasticidade, não só pelo teor da proposta mas pelas minúcias artísticas com as quais ela foi concebida. Mesmo ainda contendo, em alguns momentos, certa ingenuidade interpretativa, a postura de honestidade e comprometimento com a cena configura-se como uma das melhores iniciativas cênicas recentes na cidade.

A diretora do grupo, Maria Inês Mendonça, junto ao diretor convidado, Marcelo Ribas, deram um tom contemporâneo a um tema que, por si, poderia soar enfadonho e repetitivo, tamanha a profusão de iniciativas correlacionadas e o modismo de adotá-lo em tempos “ecologicamente corretos”. A atmosfera de contemporaneidade é muito bem pontuada não só pelo formato multimídia da cena – este, inclusive, valorizando a possibilidade de intervenções com sombras -, mas também pelo contraste entre a mítica do cerrado e o advento da tecnologia e dos agronegócios como ameaças à sobrevivência do biossistema e instrumento de alienação da coletividade.

Entre as boas surpresas da montagem, há de se destacar os bonecos representando a fauna do bioma, criados com apurado senso estético, resultado da longa experiência do grupo com os títeres. Conhecimento este amplamente aproveitado no espetáculo e presente no encerramento apoteótico da narrativa teatral, quando um imenso carcará sobrevoa a plateia, conduzido em procissão por um grupo cuja oração é o solo do cerrado.

“Cerrado, entre cascas e raízes”, por fim, é um espetáculo de bom elenco, belos elementos cênicos, música de excelente direção e condução, de plasticidade irrepreensível e propondo conteúdos que levem à reflexão. E por essas e outras razões merece ser visto.

Serviço:

“Cerrado, entre cascas e raízes”, com Maria Inês Mendonça, Angie Mendonça, Rafael Mazer, Rafael Naufel, Camila Merolla, Marcella Prado, Ana Zumpano, Hugo Vilela, Raphael Faria e Douglas Freitas. Músico: Fabrício Penha. Direção: Marcelo Ribas. Estreou em 14/4. Próximas apresentações: praças Tubal Vilela (dia 5 de maio, às 20h) e Sérgio Pacheco (dia 6 de maio, às 20h).

Comentários (4)

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  1. Ana Zumpano disse:01/05/12 18:11

    Fico feliz de estar nesse trabalho, e ao ler uma crítica tão bem colocada, me sentir parte de pelo menos um pouco dessa história… sou apaixonada pelo trabalho, admiro já faz tempo o faz de conta, e estou na luta juntamente com outros artistas para levar a cultura onde ela tem dificuldades de chegar…
    Belíssimo texto, só é uma pena, pensar que as mídias não se interessem em publicar e propagar essa história… pois, me lembro de abrir o jornal vários dias e nem sempre encontrar temas interessantes para ler, e no caso do cerrado, mais que um tema, um ACONTECIMENTO!

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  2. Maria Inês Mendonça disse:01/05/12 18:15

    Foi com intensa emoção que terminei de ler a crítica do jornalista Carlos Guimarães Coelho sobre o espetáculo Cerrado, entre cascas e raízes.
    É gratificante para mim como artista, ler palavras como estas, de quem nos conhece desde o início de nosso trabalho e sabe a dificuldade de permanecermos ativos, sem sede para montagens ou ensaios e na maior parte do tempo, pagando a conta do nosso bolso.
    Estamos aprendendo a cada dia que passa, incorporando novas pessoas e novas lições.
    O caminho é sempre para a frente! E neste caminho vamos plantando nossas sementes!
    Grata ao Carlos Guimaraes Coelhol e aos que acreditaram e tornaram possível nosso sonho.

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  3. Mrcelo Ribas disse:01/05/12 18:16

    Muito feliz e agradecido ao grupo Faz de Conta pelo convite, momento em que acreditei e me apaixonei pelo ‘Cerrado em pé’.
    Grato a todos os atores e participantes do ‘Cerrado, entre cascas e raízes’ pela entrega e confiança, realmente difíceis quando entramos em campos desconhecidos.
    Obrigado a você, Carlos Guimarães Coelho, pelo lindo texto! Palavras certas e tocantes que evidenciam uma sensibilidade ímpar!
    Enfim, o meu muito obrigado ao admirável público pela presença e presença que nos tem brindado.

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  4. Polyana Mendonça disse:01/05/12 18:17

    Excelente artigo, excelente espetáculo, excelentes atitudes. Quem bom que podemos contar com um espaço livre para circulação de informação, quando na cidade há atestada carência de mídias neutras e verdadeiramente comprometidas com a cultura e com o meio ambiente local.

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