As ruínas restauradas de um teatro universal
Os caminhos da arte são mesmo muito misteriosos. Há bem pouco tempo, a professora Yaska Antunes anunciava, por falta de recursos, uma versão menor de seu “Ruínas circulares”, a quarta de um festival de teatro em nível internacional. O que se viu durante a semana foi o contrário. Apesar de a adesão do público ter sido abaixo das expectativas – mas não ao ponto do esvaziamento – a mostra mostrou-se mais intensa e com uma programação que, além de contemplar grupos locais, expandiu a lista de convidados também para países europeus e assumiu, mais do que nas edições anteriores, espaços públicos pouco explorados na cidade.
A atitude visionária vigora quando há a persistência e o enfrentamento das adversidades. Há bem pouco tempo, em conversa com a idealizadora do evento, cujo desânimo a cogitou de transformar sua periodicidade em bienal, o cenário era de um projeto cujo destino parecia ser a morte na praia. Como em todo momento embrionário, passaram-se as dificuldades da gestação e o filho que parecia comprometido nasceu mais saudável que os anteriores.
A falta de estímulos é um baque em qualquer produção, atrasa procedimentos, dificulta a logística, cria estresse entre os organizadores e compromete resultados, dificultando inclusive o alcance ao público, meta de qualquer empreendimento dessa natureza. Acompanhando os acontecimentos, me parece que este foi o caso do recente “Ruínas circulares”. Mesmo pecando pela ausência de um marketing cultural eficaz que trouxesse visibilidade à proposta, instalou-se pelos caminhos do desejo e resultou em conteúdos surpreendentes no formato antes fadado à timidez.
Assim, com o desejo e comprometimento de alguém, o dinheiro de alguns, o esforço e dedicação de poucos, além de algumas felizes coincidências, como agregar ao evento espetáculos já em cartaz na cidade e projetos em turnê por meio de leis de incentivo, caso da companhia Luna Lunera, da capital mineira, não mais do que de repente a mostra viu-se farta em oferta para todos os gostos. Houve, claro, como em tudo aquilo que se propõe à diversidade, momentos que seriam dispensáveis. Nas três mostras – local, nacional e internacional – equívocos aconteceram. Mas, se não fossem eles, onde estariam as reflexões e os ganhos do festival?
Como toda mostra deve ser, no 4º Ruínas Circulares imperou o ecletismo. O cortejo de abertura, na terça, foi de grande magia cênica, com a adesão e criatividade de muitos artistas, locais e convidados do evento, e trouxe à avenida um momento de plasticidade ímpar. A ação cultural acertada, mas em momento errado, uma vez que era feriado e as ruas estavam desertas, limitou a plateia aos rostos curiosos nas janelas e sacadas dos edifícios. Protagonizando este momento, uma participação nobre na ocasião foi a do grupo Tá na Rua, do Rio de Janeiro, incluindo nela a figura ilustre de Amir Haddad, histórico nome das artes cênicas brasileiras. Uma curiosidade: entre os fundadores do grupo carioca, duas pessoas radicadas na cidade, a professora da Universidade Federal de Uberlândia, Ana Maria Carneiro, e o ator uberlandense Ricardo Pavão.
Nos quatro dias que se seguiram ao cortejo, em palestras, debates e apresentações, grupos da região somaram-se a outros brasileiros, latinos e europeus com vistas à reflexão e à formação de plateias. Entre erros, acertos e incidentes, como o cancelamento da apresentação de encerramento no Paiol d´Ideias pelo fato de a atriz do grupo italiano ter se queimado no ensaio realizado à tarde, a mostra revigorou-se em relação às edições anteriores e deixou ao público e agentes culturais a surpreendente lição de que menos é mais.
-
Samuel Giacomelli disse:15/06/12 12:41
Não havia lido este texto ainda, Carlinhos. Topei com ele assim por acaso. Muito bom. Realmente a Yaska está de parabéns pela execução do quarto Ruínas. Que venham muitos mais e cada vez mais fortes.
Comentários 1