Carlos Guimarães Coelho

Cultura e arte

Transe Cultural Jornalista e produtor cultural e crédulo de que as artes, em todas as suas modalidades, têm poder transformador.

5/06/2012 7:01

De plateias e bastidores

Jornalista e produtor cultural

Quando abandonamos a zona de conforto de estar na plateia e vamos para o outro lado da cena, seja no palco ou nos bastidores, percebemos coisas não perceptíveis em uma visão panorâmica. Descobrimos, por exemplo, seculares atos ritualísticos que se mantêm como resistência ao novo e outros que se perderam no meio do caminho, trazendo paradigmas nem sempre apreciáveis.

Estar na cena ou nos bastidores dela quase sempre não é uma posição confortável. Prazerosa sim, ao menos para a maioria. Mas, nem sempre confortável. E o que salva quaisquer desconfortos e desencontros de uma construção coletiva é o simples fato de que há sempre magia no palco. Uma magia que supera eventuais dores físicas, promove agilidade ao pensamento em fração de segundos e rejuvenesce em décadas artistas envelhecidos fora da cena. Há sempre histórias inacreditáveis a se contar sobre o poder que a cena exerce naqueles que habitam os palcos. Assim como há muitas histórias a se contar de quantas cenas foram mutiladas em nome de uma “ordem” promovida por agentes culturais não conectados aos processos da construção artística ou administradores de espaços prontos a “maquiar” com proibições a falta de estrutura existente.

Entre os rituais mais frequentes em todo o mundo, está a ida de espectadores aos camarins, algo que agrada e enobrece o artista e só não é permitido quando, por algum motivo, ele próprio não o deseja, o que raramente acontece. Desde sempre, é praxe e motivo de alegria a visita de fãs e amigos aos bastidores da peça ou do show. Claro, dependendo da projeção do artista, há limitações no número de pessoas a serem atendidas.

Algumas vezes, em Uberlândia, fui surpreendido com seguranças e funcionários dos espaços de apresentações “barrando” espectadores e proibindo a entrada no camarim. Um grande equívoco e uma atitude em contramão ao ritual existente desde que a arte é arte. No episódio mais recente, ouvi a justificativa de que um “incidente” aconteceu e, por isso, estabeleceu-se a regra. Fiquei pensando nas várias negativas existentes inspiradas em acontecimentos isolados, não tratados isoladamente e, portanto, prejudicando o coletivo, com determinações equivocadas em nome de uma ordem local acima de quaisquer rituais e concepções artísticas. A cultura do não em detrimento de processos e construções quase sempre ritualísticos.

No turbilhão de acontecimentos que redimensionam a cultura local e, em breve, a conduzem para um futuro promissor, há de se repensar a postura de pessoas que atuam na área. É preciso despertar nelas uma sensibilidade maior em relação à arte e um trato mais apurado àqueles que a consomem.

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