Carlos Guimarães Coelho

Cultura e arte

Transe Cultural Jornalista e produtor cultural e crédulo de que as artes, em todas as suas modalidades, têm poder transformador.

31/07/2012 6:55

A arte maior que a vida

Jornalista e produtor cultural

Fico pensando, às vezes, se talento é algo que se perde. Já é difícil saber se esse valor sublime é nato ou desenvolvido ao longo da vida. Ainda que seja sempre necessário maturar aquilo que parece vir na carga genética do indivíduo, o mais surpreendente é saber que, por mais que se distancie de sua arte, o artista estará sempre ali dentro, adormecido, aguardando o grito para que desperte e se expresse diante do mundo.

No fim de semana, fui ouvir uma amiga cantora que, aos poucos, vai retornando aos palcos da vida. O canto dessa artista, desde sempre, se coloca para mim como um presente, uma voz privilegiada, de sensível interpretação, que nos toca profundamente com seu repertório.

A saudade se colocou entre a gente. O brilho dessa mulher, que nasceu para ser uma estrela, há muito estava escondido, sufocado pelas intempéries da vida. Ouvi-la novamente me deixou comovido. E inconformado com as armadilhas do destino que muitas vezes fazem o artista bater em retirada, recuar em seu ofício e nos privar desse compartilhamento imprescindível à existência.

Considero a cantora Keley Calaça uma das vozes mais lindas da cidade. Teve o infortúnio de uma tragédia em sua vida, que nem cabe aqui comentar, sofreu injustiças imperdoáveis, mas não se deixou abater em seu fazer artístico, embora nele silencioso nos últimos anos. Vê-la retornando, após retirar as poeiras de seu violão, com a mesma intensidade de antes, com o mesmo virtuosismo instrumental e vocal que lhe acompanhou toda a carreira, nos faz crer que o artista, mesmo distante do seu ofício, permanece em inconsciente processo de maturação em sua arte.

No caso de Keley, duas coisas me impressionam: a interpretação personalizada de cada música do repertório eclético e a dimensão humana que ela dá a esse canto. Como ninguém, e numa invejável facilidade vocal, ela é daquele tipo de intérprete que retira da música a essência que nos faz fechar os olhos e mergulhar na musicalidade.

Quem a conhece sabe de duas Keleys, a que habita o palco, às vezes serena, em outras, irreverente, em alguns momentos divertidamente indisciplinada, mas sempre imersa na força que o canto lhe proporciona. A outra Keley recorre à energia emanada desse palco para se debater com a vida, para buscar os caminhos que, no futuro, lhe retirem as angústias, dores e lembranças que quase adormeceram a sua arte.

Para o campo profissional ela não leva o peso dessa luta. No pessoal também não. É mulher de fibra, que ainda cultiva a alegria e o prazer de amizades e de sorrisos, também presentes em seu canto.
É bom ter de volta a força dessa poesia.

Comentários 1

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  1. João Callaça disse:19/08/12 11:50

    Lágrimas…obrigado!!
    Minha irmã é uma das maiores cantoras que eu já pude escutar na vida!!

    Ninguém e nada calará essa voz!

    João Callaça

    Responder