Quem disse que samba é divã de pobre?
Em um cenário de grande desgaste na indústria fonográfica brasileira, é confortante perceber que, enquanto processo artístico de grande envergadura, a boa música brasileira sobrevive ao caos de tchus, tchas e “ai se eu te pego”. Ela se impõe solene com criações realizadas há quase um século e até hoje comovem e sacodem os esqueletos de milhares de pessoas país afora.
É assim que o gênero musical mais genuíno do Brasil encontra moradia certa entre os amantes da boa música. Isso pôde ser constatado na tarde de anteontem, no Beco da Canela, quando um time de músicos locais de primeira grandeza, quase todos habituados ao universo jazzístico, abriu espaço para o riquíssimo repertório de sambas criado por Noel Rosa, poeta ícone da música brasileira do início do século passado que, mesmo morto precocemente aos 27 anos, deixou centenas de grandes sucessos gravados e regravados até os dias de hoje.
Com magistrais interpretações vocais de Edson Denizard e instrumentais de Edson Júnior, Eduardo Cáceres e Dedé, a tarde musical trouxe, além de sucessos do compositor, como “Com que roupa”, “Feitiço da Vila”, entre outros, músicas pouco conhecidas do grande público, mas aclamadas em décadas anteriores e figuradas na história da música popular brasileira.
Como já dizia o escritor Victor Hugo, “a música expressa o que não pode ser dito e o que é impossível se manter em silêncio”. E, como uma amiga já disse, o samba é o grande divã do povo brasileiro. É onde a grande maioria da população consegue, com alegria, afogar as mágoas e esquecer as dificuldades da vida. Discordo dela parcialmente. Tudo bem que a música brasileira seja sim um grande consolo para a sofrível realidade e agruras de nosso povo. Mas, não só. Há, em sambistas clássicos de nossa história, um requinte de composição e repertório que nada fica a dever aos grandes movimentos musicais de todo o mundo. Se hoje existem pessoas que têm preconceito com esse tipo de música é por que não a conhece em sua essência e não percebe a elegância de seu porte, confundida com derivações às vezes esdrúxulas, quase todas localizadas na equivocada definição de “pagode”.
Caso a apresentação de domingo à tarde recebesse uma estrutura mais adequada – a ausência de espaços adequados na cidade, lamentavelmente, continua sendo o grande problema para quaisquer manifestações artísticas -, estaria digna de cumprir uma grande temporada e de circular por todo o país com este belo tributo ao poeta da vila.
De qualquer forma, é bom que bares e restaurantes da cidade improvisem seus espaços e abriguem iniciativas de nossa rica e diversa expressão musical. Pelo menos assim, não ficamos à mercê de grunhidos e sonoridades que tentam se definir como música.
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