Carlos Guimarães Coelho

Cultura e arte

Transe Cultural Jornalista e produtor cultural e crédulo de que as artes, em todas as suas modalidades, têm poder transformador.

1 de janeiro de 2013 8:59

O adeus à coluna

Jornalista e produtor cultural

É muito difícil dizer adeus ao que se ama. Há pessoas, coisas e lugares que ocupam lugar de honra em nossas vidas. Por mais que exercitemos o desapego, a despedida é sempre triste. Chegou o momento de encerrar, ao menos temporariamente, este encontro semanal. Um novo desafio me chama e, para assumi-lo com ética, devo me despedir da coluna. E retomá-la no futuro. Quem sabe?

O que me vem à mente são os textos produzidos ao longo de três anos e oito meses. Revivo cada espetáculo assistido e comentado, cada reflexão sobre as mudanças culturais no país, cada modelo de comportamento instigando leitores e até mesmo cada falta de assunto preenchida com palavras que buscassem significados e ressonância. Melhor ainda são as lembranças da repercussão e dos comentários de concordância e discordância das opiniões proferidas.

A partir de amanhã passo a ser um dos assessores do novo secretário municipal de Cultura, Gilberto Neves. Eu imaginava antes que, ao receber um convite desses, pensaria um pouco mais. Aconteceu ao contrário. Nem precisei pensar no assunto ao ver que o desafio posto vai ao encontro de minha expectativa de continuar contribuindo com a evolução da cultura local. Se até aqui a minha contribuição se deu por meio de realizações de produções com artistas locais e com artistas de fora e também por intermédio de minha atuação como jornalista cultural, agora é o momento de estar na engrenagem do poder municipal para buscar, junto ao novo secretário e aos artistas, políticas públicas que a favoreçam.

Vejo que há grandes expectativas quanto à nova gestão da prefeitura. Eu também as tenho. Só não me imaginava como mais alguém responsável por satisfazê-las. Sei que nenhum governo é perfeito e esse também não será. A perfeição não existe, mas a busca por ela é que trará a consistência dos resultados.

Para mim, sem modéstia, a credibilidade do novo governo aumentou a partir deste convite. Embora eu, há décadas, vote em Gilmar Machado, desde a sua primeira candidatura, sou um ser independente e apartidário, convidado única e exclusivamente pelo meu histórico de atuação e competência técnica na área.

Por outro lado, honro também a posição de independência desse jornal CORREIO de Uberlândia. Pautado pela ética e pela responsabilidade, o veículo não poderia manter em suas páginas nenhum dos profissionais convidados a compor a nova equipe de governo. Assim sempre foi. E continua sendo.

Há um pouco de dor na despedida. Fará falta a oportunidade de repercutir os espetáculos que eu assistir (e agora, certamente, serão muito mais) e o enfrentamento público de questões pertinentes à cena cultural. A vida é feita de escolhas. Nesse momento, a minha é me colocar à disposição dos artistas e gestores culturais para ser um interlocutor junto ao novo governo. E de ajudá-lo a cumprir com excelência as propostas culturais colocadas durante a campanha eleitoral.

Fica aqui registrado o meu carinho grato às pessoas que me leram durante todo esse tempo, que comentaram no site, em meu e-mail, em telefonemas e nas redes virtuais. A gratidão também aos artistas que me inspiraram a tecer palavras que estivessem à altura de traduzir as suas construções.

Obrigado ao CORREIO por me abrigar nessas linhas e ao novo governo pelo voto de confiança em estabelecer comigo uma parceria. Espero honrar o convite e atender ao compromisso público assumido pelo prefeito Gilmar Machado e pelo secretário municipal de Cultura Gilberto Neves.

E me despeço, num misto de alegria e tristeza, de meus queridos leitores. Foi bom demais estar aqui.

25 de dezembro de 2012 7:00

Os primeiros passos do Municipal

Jornalista e produtor cultural

O assunto não poderia ser outro. Quinze dias após a morte de seu arquiteto, no fim de semana, depois de muitos anos de espera, o Teatro Municipal de Uberlândia deu início às atividades e estabeleceu o marco que pode ser considerado divisor de águas na história local da cultura.

Com a mesma aura de polêmica de seus anos de construção, a primeira noite da semana de inauguração se deu marcada pela emoção de alguns e insatisfação de outros. A emoção estava contida naqueles que tiveram acesso a um convite e a indignação tomou conta das redes sociais com questionamentos sobre os critérios adotados para estabelecer a programação inaugural e a preocupação sobre como se dará a gestão do espaço.
No discurso emocionado da atual secretária, Mônica Debs, em seus últimos dias no cargo, o tom, além de agradecimentos acentuados ao prefeito Odelmo Leão, que também se despede do governo, era de valorização da classe artística – não muito valorizada naquele primeiro momento, é verdade.

O espaço é maravilhoso. Uma sala moderna e aconchegante, mas, com a parte técnica – de vital e extrema importância – ainda inacabada. Estranhamente, na noite de gala de abertura oficial das portas, com direito a descerramento de placas e presença dos maiores patrocinadores de Uberlândia, pouquíssimos artistas, além dos músicos que se apresentaram, estavam presente. E não foi por falta de desejo. Foi por falta de convite. Era fundamental que naquele momento houvesse mais artistas. Não serviu de consolo, mas nas três noites seguintes foi a vez deles. Imperou a diversidade de atrações locais que comoveram o público ora absorto pela qualidade das apresentações ora pelo encantamento com a suntuosidade do novo espaço. Aí sim, na plateia esteve também boa parte daqueles que nos próximos anos deverão pisar naquele palco.

O importante é atermos ao que é permanente. Se hoje há insatisfeitos e preocupações, isso se resolve com consistentes políticas públicas e gestão compartilhada. O fato é que o Teatro Municipal de Uberlândia veio pra ficar. É sonho realizado. Agora, é buscar a realização de outros igualmente importantes, como a criação de uma Orquestra Sinfônica Municipal, de um corpo estável de dança e de um grupo de teatro, ambos em nível profissional, para serem oficialmente residentes nesse mesmo teatro, além de ações paralelas que foram plataforma de campanha do novo governo, como a criação de um Conservatório Municipal de Música e reerguer o teatro Grande Otelo.

Não desprezando as iniciativas de tempos anteriores, o Teatro Municipal de Uberlândia representa o início de novos tempos para a cultura local. A partir dele, favorecendo também outras ações e outros espaços, artistas e espectadores aprenderão como trilhar esse novo caminho.

18 de dezembro de 2012 6:45

Estamos todos no limbo

Jornalista e produtor cultural

Há quem diga que a arte tem efeitos curativos. Para outros, ela nasce a partir da cura. Feliz do artista que consegue expressar-se nesse limiar e trazer para a cena o tratamento das feridas que constroem e desconstroem o ser humano. Um compartilhamento dessa natureza foi brilhantemente edificado pela atriz Teta Campos no espetáculo “Maria Padilha”, que realizou temporada de estreia na semana passada.

A construção foi pautada também pela visível direção de Marcelo Ribas, pela assessoria coreográfica de Cláudio Henrique e por uma trilha sonora assinada por Moisés Mota, que funciona perfeitamente como interface às aflições e libertações que a montagem propõe.

Mesmo em se tratando de delicadezas da alma, a presença da atriz impõe-se vigorosa. Sempre me impressionou como alguns atores conseguem, fisicamente mesmo, crescer sob os refletores. Lembro-me, em vários momentos, de alguns com baixa estatura agigantarem no palco. Nesse caso, a atriz é uma mulher alta, mas pareceu-me ainda maior pelo vigor de sua presença cênica, pelo preparo corporal, pelo vai-e-vem de personagens contracenando consigo mesma em uma espécie de plano espiritual onde a guerra é pela honestidade do comportamento e pela derrubada da hipocrisia e dos preconceitos.

Quando a personagem Dona Carlota se contrapõe às provocações da entidade Maria Padilha, a vestimenta preta, com o peso de falsa moral e de falsos costumes, é substituída pela sensualidade e beleza de um quente vermelho, e nos traz a certeza que, em nós, toda alma é cinza. Em nível geral somos todos condicionados e comportados à espera de milagres que nos retirem de um limbo emocional e nos coloquem na plenitude da existência, física inclusive.

Na contracena monocromática de Dona Carlota com a vermelhidão explosiva de Maria Padilha, Teta transita entre as duas arrancando de si o melhor que possa traduzi-las. Raramente uma construção teatral tão densa provoca com leveza uma viagem dos espectadores em torno de si mesmos.

A atriz, seguramente, inspirou-se em questões bem pessoais para conceber a obra e estabelecer essa fusão da dualidade. Mas, ao fazê-la, trouxe para o espetáculo, como deve ser em se tratando de uma produção artística, a possibilidade de leituras personalizadas, que se encaixem na “luta espiritual” de cada um.

Para muitos, Padilha é a representação legítima de um mundo espiritual que nos cerca. Para outros, apenas a metáfora de que estamos sempre em guerra interna pela busca de sentimentos e sensações que nos façam seres mais verdadeiros.
Não importa a leitura. O fato é que a cena proposta traz consigo a missão cumprida, de expor as mazelas e fragilidades que possuímos e, na maior parte das vezes, alimentamos.