Ouvir o corpo
Conviver com a dor e o prazer é um assunto subjetivo que está no cotidiano do mundo esportivo. Alguns até afirmam que a dor faz parte do uniforme do atleta. Quem não se lembra da imagem do Ayrton Senna no Grande Prêmio de F1 de 1991 em Interlagos São Paulo? No pódio, o piloto ergueu, com muito sacrifício, o troféu de vencedor. O desgaste na corrida foi tão grande que precisou ser amparado durante a premiação. Em 1984, nos Jogos Olímpicos de Los Angeles, a americana Joan Benoit ganhou a maratona, mas todas as atenções se voltaram para a suíça Gabriela Andersen-Scheiss. Ela chegou ao estádio 20 minutos depois e completou os últimos metros cambaleando, mal conseguiu cruzar a linha de chegada.
Até hoje é uma referência de símbolo de superação. Mas, enfim, devemos superar a dor, mesmo sabendo que podemos agravar uma lesão? Qual o prazer de correr com o coração saindo pela boca? É um tema recorrente, mas em determinado momento de uma corrida muitas vezes vem à mente: “paro ou continuo?”. Quais as consequências em potencializar ainda mais um problema existente? Há corredores que param e corredores que continuam e cada um tem suas razões e motivações. Particularmente já parei em algumas provas, mas, mesmo para nós amadores, a decisão não é fácil. Tem o tempo que gastamos nos treinamentos, a viagem, a expectativa esperada e sempre fica a sensação de fracasso.
Durante uma corrida, a dor passa a influenciar as decisões, pensamentos negativos e positivos vêm à mente. Um diagnóstico momentâneo importante é prestar atenção na dor: qual a duração, intensidade, localização, em qual exato movimento do corpo. Procure interpretá-la para ver o que ela significa, mas não tenha dúvida em tomar a decisão correta. Por exemplo, uma dor no pé pode ser causada pelo tênis mal amarrado. O vestuário inadequado pode causar desconforto. Caso ocorram incômodos nos ombros, pode ser uma postura indevida. Um alongamento pode afastar uma possível câimbra. Às vezes, o quadro é contornável, basta “escutar e entender” seu corpo.
Muitos corredores analisam a dor como melhora do desempenho. É como se ela fosse uma companheira constante e, consequentemente, convive-se com dor. Um fato é verdadeiro: quanto maior a quantidade de esforço, maior a liberação de endorfina, chegando a um ponto em que é preciso mais exercício para atingir a mesma sensação de bem-estar. A decisão é pessoal, mas é preciso compreender a relação entre dor e prazer para que se possa ter muitos anos de corridas prazerosas pela sempre.
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