Nilson Paulo de Lima

"Nós somos a soma de nossas decisões"

Treinos e Metas Um Ultramaratonista que, ao longo dos anos e dos quilômetros acumulados, acredita que a corrida pode te levar aonde você quiser ir.

8/12/2011 6:17

Meu arrependimento

Consultor financeiro

Até parece algo orquestrado, mas sempre que ouço a pergunta: “Do que mais você se arrepende na vida?“, as respostas são sempre as mesmas “Só me arrependo daquilo que não fiz”. Será que só eu me arrependo de decisões que um dia tomei? Deixa-me explicar. Comecei a correr um pouco tarde, beirando a casa dos 40. Além de tentar reverter o quadro de obesidade que se avizinhava, o objetivo ao calçar o tênis era substituir as “peladas” de fim de semana, criar novas amizades e seguir feliz adiante. Ao longo desse tempo, as transformações pelas quais passei por causa das corridas foram importantes.

A mais expressiva dessas mudanças diz respeito a algo que bem poderia chamar de rejuvenescimento. Simples: quando corro, faço-o como se criança fosse. Volto à infância, brinco e me divirto um bocado. É lógico que, em alguns momentos, dou uma certa disfarçada e procuro manter a aparência, o comportamento de adulto. Com muito cuidado, sempre que há uma oportunidade, falo em limiar anaeróbio, índice de lactato, zona alvo de batimentos cardíacos, intervalado, suplementos, pronação, essas coisas, digamos, mais sérias, mas, bem lá no fundo, sei que estou é me divertindo.

Quando vejo algum corredor se aproximar, e sei o assunto, coloco no rosto uma expressão de firmeza como os grandes corredores. A seguir, tão logo me sinta fora do alcance de seu olhar, relaxo e volto a me divertir. Nas provas faço ainda melhor. Nelas alinho com o firme propósito de testar os limites da minha habilidade e a seriedade da preparação. A máscara de competidor costuma cair por terra antes da primeira curva: não demora muito e me relaxo, se possível logo estou de papo com algum corredor. Grandes amizades nasceram daí.

O fato é que quanto mais seriamente me empenho em melhorar minhas corridas mais me divirto. Exemplo? Ir ao clube cercado de pessoas alheias à corrida, fazer intervalados ou tiros não me deixa confortável. Mas me faz rir por saber que é algo estranho para os desconhecidos. Não que eu goste, mas há ocasiões em que até correr na esteira me diverte. Embora prefira ambientes abertos e ensolarados, ficar uma hora ou mais vendo a lona passar sob meus pés faz com que questione minha suposta racionalidade. Nessas situações, não há como não me divertir. Principalmente, quando lembro de que, se não fosse por ela, a esteira, a corrida num dia de tempestade ou na recuperação de uma lesão, simplesmente não existiria.

Quilômetros após quilômetros, nessa volta à infância por meio das corridas, hoje em dia percebo que estou muito mais aberto a novas amizades que no passado, quando era mais velho. Sim, foi por meio das corridas que recobrei a confiança e a inocência da juventude. Era sim, mais velho quando comecei a correr. Vem daí meu arrependimento por uma coisa que fiz na vida: devia ter começado a correr mais cedo. Hoje estaria mais jovem. Mas, lembre-se, antes tarde do que mais tarde.

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